Opinião
Depois da urna, a máquina
A eleição decide quem governa a partir de janeiro. O Estado que essa pessoa vai governar continua o mesmo. A universidade brasileira sabe estudá-lo, acompanhá-lo e corrigi-lo, e esse saber precisa chegar aonde os problemas se formam.
por Orlando Lopes · 2026-10-15
Em "Na prorrogação", publicado aqui na semana passada, deixei uma pergunta em aberto: como recuperar e fortalecer os espaços de participação da sociedade civil, das entidades de classe e dos especialistas depois que a corrida pelas urnas terminar. Este ensaio é uma primeira tentativa de resposta.
Uma batalha
Nesta eleição, os estudantes e as unidades da rede federal de ensino mostraram de novo que são peças-chave na defesa do Estado de Direito. Responderam mais rápido que boa parte das instituições, que seguem às voltas com seus limites e suas crises internas.
Uma batalha, ganha ou perdida, não decide a guerra. No dia 26 de outubro, seja quem for o vencedor, o país acorda com os problemas da véspera. Há uma sociedade fraturada, que divide o voto quase ao meio e já não reconhece o adversário como interlocutor. Há um pacto social com prazo vencido: o de 1988, que prometeu saúde universal, educação pública e seguridade, hoje cobrado por quem depende dele e contestado por quem nunca o aceitou. E há um regime econômico novo, de plataformas, automação e trabalho sem vínculo, que desorganiza as categorias com que o Estado ainda classifica trabalhadores, empresas e direitos.
Como ler o resultado
Proponho ler a eleição de 2026 como um inventário. O resultado diz quem ocupa a Presidência e os governos estaduais a partir de 1º de janeiro. Para quem quiser olhar, mostra também o que está de pé e o que está exposto no Estado brasileiro.
Três coisas não mudam com o segundo turno. A primeira é o Congresso, eleito em 4 de outubro e com composição já conhecida. Qualquer governo vai negociar cada medida provisória, cada lei e cada emenda com essa Câmara e esse Senado. A série Pontos de sustentação, que esta revista abriu nesta semana, mostra que parte das políticas públicas muda com uma assinatura e parte depende de maiorias qualificadas, difíceis de formar.
A segunda é a máquina pública: servidores, sistemas, fundos, conselhos, protocolos, contratos em vigor. É ela que executa, atrasa, adapta ou deixa na gaveta o que o governo decide. Entre a lei sancionada e o serviço prestado há portaria, edital, sistema de informação, fluxo de processo, parecer jurídico, dotação orçamentária e gente que precisa saber o que fazer na segunda-feira.
A terceira é a fratura. Vitória eleitoral não a resolve, e ela tende a se aprofundar se o lado vencedor tratar o resultado como mandato para ignorar a metade que perdeu.
Sobre o Congresso, a universidade tem influência indireta. Sobre a máquina e sobre a fratura, tem muito trabalho possível.
Uma vocação que já existe
Acompanhar, avaliar e propor política pública é vocação antiga da universidade brasileira. Ela aparece nos observatórios, nos núcleos de estudo, nos programas de extensão, nas avaliações de programas sociais feitas por grupos de pesquisa, nos pareceres que departamentos dão a conselhos municipais, nas residências em saúde, nos escritórios de assistência jurídica e nas incubadoras. Boa parte do que o país sabe sobre si mesmo, da desigualdade escolar à epidemiologia, passou por uma universidade pública.
Esse patrimônio pode se perder. O corte de verba no orçamento federal recai primeiro sobre o custeio das universidades e as bolsas, e quem sabia fazer se aposenta sem ter formado sucessor. Há também uma perda mais silenciosa: a universidade passa a ver esse trabalho como atividade periférica, que não conta para a carreira nem para a avaliação. Isso acontece num momento em que vários eventos históricos tensionam ao mesmo tempo a sociedade brasileira e o mundo (a crise climática, as guerras, a reorganização do trabalho pela inteligência artificial), e em que o Estado vai precisar de mais conhecimento aplicado, não de menos.
Os efeitos e as causas
As ciências humanas e sociais ganham força pública quando sua pesquisa e sua extensão mudam alguma coisa na vida das pessoas. Nas últimas décadas, isso tem significado sobretudo trabalho com comunidades vulneráveis: cursinhos populares, assessoria a associações de moradores, educação de jovens e adultos, saúde comunitária, documentação de memória, economia solidária. Essa frente precisa crescer muito, porque ainda é pequena perto da demanda.
Os problemas que aparecem na comunidade, porém, muitas vezes são efeitos. São projeções de decisões tomadas em outros espaços sociais, alguns sofisticados e plenamente funcionais. A fila do posto de saúde se forma num protocolo de regulação, num contrato com prestador, numa agenda configurada num sistema. A merenda pobre começa num edital de compra, numa tabela de preços, numa chamada pública que o agricultor familiar não conseguiu entender. O benefício negado sai de um cruzamento de cadastros que ninguém na ponta sabe explicar. O despejo passa por um cartório, por uma vara judicial, por um plano diretor revisto com pouca participação.
Esses espaços funcionam. Têm regras, técnicos competentes, linguagem própria e uma lógica que se reproduz de governo em governo. São mais difíceis de estudar que um bairro, porque não se apresentam como problema e pedem credencial, acordo de cooperação e tempo de convivência. Quem está do lado de fora vê só o resultado.
A extensão que vai à comunidade e não sobe a cadeia até onde o problema se forma cuida do sintoma. A pesquisa que estuda o Estado só pelos documentos publicados, sem entrar nele, descreve a fachada.
A máquina pública como campo
A academia brasileira precisa ser provocada a conhecer as entranhas do serviço público e a ajudar a construir soluções, reformas e revisões. Isso começa pelos trabalhos que formam pesquisadores: iniciações científicas, trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses que tenham a máquina pública como objeto, como ambiente ou como contexto.
Como objeto, isso significa estudar um fluxo de compras, a regulação de leitos, o desenho de um formulário, o funcionamento de um conselho, a execução de uma emenda parlamentar. Como ambiente, fazer a pesquisa dentro de uma secretaria, de uma agência ou de um tribunal de contas, com acordo formal, dados reais e um servidor na coorientação. Como contexto, partir de um problema que o órgão já identificou e não tem como resolver, e devolver a ele um diagnóstico ou uma proposta que possa usar.
Quando falo em ciências humanas e sociais, incluo as ciências sociais aplicadas e as ciências da linguagem. Cada área chega à máquina por uma porta. A Economia lê orçamento, custo e incentivo. A Administração lê processo, compra e gestão de pessoas. O Serviço Social conhece a operação real da assistência, do Cras ao cadastro. O Direito lê a norma, o parecer e a jurisprudência que travam ou liberam uma política. A Sociologia, a Ciência Política e a Antropologia estudam quem decide, como se forma uma burocracia e como ela trata quem chega ao balcão.
As ciências da linguagem ocupam um lugar menos óbvio e talvez mais urgente. O Estado fala por edital, ofício, portaria, formulário, mensagem automática e tela de aplicativo. Muita gente perde direito porque não entendeu o que leu, e muita política fracassa porque o texto que a regulamenta é ambíguo. A Linguística pode trabalhar a linguagem simples e a análise de documentos normativos. A Semiótica e a Semiologia podem estudar como o serviço público significa para quem o usa, e como a desinformação desmonta a confiança nele. Sou professor de Literatura e digo isso com algum interesse: é um campo em que nossas áreas raramente se reconhecem e em que fariam diferença.
Frentes de ação
Proponho seis frentes, em ordem de prioridade.
A primeira é abrir linhas de pesquisa e de orientação sobre a máquina pública. Cada programa de pós-graduação em humanas e sociais pode oferecer, todo ano, temas definidos com órgãos públicos. Cada curso de graduação pode manter um banco de problemas para iniciação científica e TCC, alimentado por secretarias municipais e estaduais. O acordo de cooperação precisa ser simples o bastante para não morrer na procuradoria.
A segunda é fazer a extensão subir a cadeia. Os cursinhos populares, as assessorias comunitárias e os projetos de território devem crescer, e cada um pode acrescentar uma pergunta ao seu trabalho: onde esse problema é produzido? Um projeto de alfabetização de adultos que investiga por que a turma de EJA não abre no bairro já está estudando a rede de ensino.
A terceira é trabalhar com quem já está dentro. Muitos de nós demos aula para boa parte dos técnicos e gestores que hoje ocupam a administração pública nos três níveis. Essa rede de egressos é um canal pouco usado. Mestrados profissionais, especializações para servidores, grupos de estudo abertos e residências técnicas podem transformar essa relação difusa em colaboração regular.
A quarta é ocupar com qualidade as instâncias de participação. Conselhos, conferências, audiências públicas e consultas dependem de quem chega com informação. A presença da universidade nesses espaços, com nota técnica, dado e leitura de norma, ajuda a sociedade civil a negociar em pé de igualdade com o governo, qualquer governo. Ajuda também a proteger os próprios conselhos: os que nasceram de decreto podem ser extintos por decreto, como esta revista mostrou nesta semana.
A quinta é manter monitoramento permanente. Observatório que só existe na eleição vira peça de campanha. Os instrumentos são públicos: Diário Oficial, Portal da Transparência, execução orçamentária, Lei de Acesso à Informação. Falta continuidade, com grupos que acompanhem uma política por anos, com série histórica e método aberto, e publiquem numa linguagem que o conselheiro municipal e o jornalista local consigam usar.
A sexta é fazer esse trabalho contar. Enquanto a nota técnica para um conselho, o diagnóstico entregue a uma secretaria e o banco de dados aberto valerem menos que um artigo na carreira docente e na avaliação da pós-graduação, essa vocação vai depender de voluntarismo. A universidade precisa reconhecer essa produção, e as agências de fomento precisam financiá-la com regularidade.
Distância e autonomia
Há um risco nessa proposta, e convém nomeá-lo. A universidade que entra na máquina pública pode virar consultoria barata do governo de turno ou braço técnico de um partido. A defesa é a mesma que vale para qualquer pesquisa: método declarado, dado aberto, conflito de interesse informado e resultado publicado mesmo quando desagrada a quem abriu a porta. O trabalho precisa servir ao próximo governo tanto quanto ao atual, e o compromisso com a política pública sobrevive à troca de comando.
O que esta revista pode fazer
Território nasceu para acompanhar a implementação, ou não, das políticas públicas nos municípios, nos estados e na União. Pode ser um dos lugares onde esse trabalho aparece: publicar em texto curto e legível resultados de iniciação científica, TCC, dissertação e tese sobre a máquina pública; abrir pauta para problemas que servidores identificam e não conseguem resolver; aproximar quem estuda o mesmo órgão em instituições diferentes.
Aos colegas orientadores, aos estudantes de graduação e de pós-graduação e aos servidores que leem esta revista, faço um pedido: mandem temas, problemas e resultados pelo formulário de colaboradores. Quem tiver um TCC parado na gaveta sobre uma secretaria, um conselho ou um sistema público, mande também.