Opinião
Na prorrogação
A corrida pelas urnas acaba em 25 de outubro. A vida política segue, e o contrapeso depende de participação, da universidade e de tecnologia própria.
por Orlando Lopes · 2026-10-09
Estamos na prorrogação da eleição, no mata-mata. Mais uma vez as universidades e o movimento estudantil fazem a linha de frente para garantir a possibilidade do Estado de Direito, enquanto as instituições lidam com suas limitações e suas próprias crises internas.
Escrevo mais como pesquisador e experimentador do que como militante, mais como servidor público do que como quadro político. Não sou filiado a partido. Sou professor de Literatura na Ufes, extensionista e pesquisador em economia criativa, tecnologias sociais e, agora, aplicações de IA a projetos culturais, educacionais e sociais, entre a Ufes e o litoral sul do Espírito Santo.
Outras arenas
No segundo turno várias frentes se abriram, porque são vários os focos de ataque físico e simbólico conduzidos pela direita. Os estudantes deram resposta rápida, e o movimento seguirá crescendo. Mas essa é uma arena, e não é a única. Há uma guerra midiática, da grande mídia à mídia viral e às fazendas de robôs. Há desmontes em curso, que preparam a devassa das privatizações, o estrangulamento das universidades nos tariflávios, o colapso da saúde e da previdência. Nada disso se mostrará urgente hoje ou amanhã, ainda mais para os jovens estudantes.
A política é, ou deveria ser, discurso, interlocução, diálogo. Fomos esquecendo como fazer isso, se é que algum dia chegamos a fazê-lo plenamente, no Brasil e no mundo. Há uma corrida pelas urnas daqui a quinze dias. Depois dela a vida política continuará, com a direita em vantagem absurda na Câmara e no Senado. A única forma de manter algum controle, algum contrapeso, é trabalhar para recuperar e fortalecer os espaços de participação da sociedade civil, os órgãos de representação de classe e os especialistas reconhecidos pelas comunidades acadêmicas.
A pergunta é como fazer isso.
Falta tecnologia
Não tenho resposta completa. Este texto começou dessa pergunta, e comecei a pensar nela na reunião com Helder Salomão na Av. Vitória. Pelo que já vinha conversando com amigos, me pareceu que faltava tecnologia no esforço de campanha. O mundo mudou muito nas últimas décadas, e seguimos lidando com as dinâmicas políticas praticamente da mesma forma.
Os estudantes vão arregimentar multidões. Será lindo, e talvez vire o jogo. Mas até onde essa onda se propagará? Nem todas as decisões se constroem nas ruas, e nem todas as respostas estão à mão num movimento emergencial.
A universidade depois da urna
As associações de pós-graduação também iniciaram um movimento, e isso abre espaço para discutir outras frentes. Estudantes de pós-graduação têm outro nível de autonomia e outros espaços possíveis de inserção e proposição. Como essas comunidades acadêmicas podem se manter ligadas à observação e à participação nas instâncias políticas? Questões assim levam ao papel da universidade na sociedade contemporânea, que muito se observa e pouco se discute ou resolve.
Muitos de nós demos aula para boa parte dos profissionais que ocupam postos-chave no mundo público, privado e não governamental. Não apenas políticos e gestores: a massa real de trabalhadores que forma os níveis administrativo e técnico de quase todas as organizações.
Um parque tecnológico próprio
Sigo acreditando que a esquerda precisa atualizar seu parque tecnológico: criar unidades de IA que não entreguem dados "ao patrão", aprimorar as intranets e plataformas do ecossistema da esquerda, recuperar tecnologias que fazem sentido para a comunicação humana, como jornais comunitários impressos, murais e formação política continuada.
Esta revista é uma dessas tentativas. Pretende ser um espaço de análises e orientações para acompanhar a implementação, ou não, das políticas públicas nos municípios, nos estados e na União. É um desenho ambicioso, que só faz sentido com rigor editorial e dinâmica colaborativa. Se a revista se consolidar até o fim do ano, a editora Cousa vai incluí-la no seu catálogo editorial. Quem quiser enviar artigo de opinião, ensaio, análise ou pauta, ou integrar uma editoria, é bem-vind@.